Por Marcelo Sena
Como fazer da voz uma extensão do nosso corpo e que consiga atingir o outro não apenas pelo significado das palavras, mas também pela musicalidade e textura da voz? "Ossevao", de Silvinha Goes, e "Topografia do Feminino", de Liana Gesteira, ambas integrantes do Coletivo Lugar Comum, propõem uma proximidade entre público e artista com extrema poesia.
Já pela proposta de espaço onde aconteceu a performance (Cachaçaria Fogão de Lenha), percebe-se uma vontade de estar junto do outro, e essa proximidade torna-se fator fundamental na própria projeção da voz e dos movimentos que vão sendo tecidos ali, perto do outro, quase em seu colo.
Enquanto Liana usa palavras da Viviane Mosé, tornando-as suas palavras, Silvinha conversa com quem está perto e a faz também dizer (na escrita e na oralidade). Interessante saber que as duas artistas têm também compartilhado o próprio processo da relação entre corpo e voz, com a oficina "Improvisação – Corpo e Poesia" que vêm ministrando juntas.
Na fisicalidade que Liana vai propondo nas relações com o seu próprio corpo feminino e o de outros corpos femininos que também investigou (a partir de conversas e vivências) ela vai mapeando também o nosso olhar, ao ir estranhando cada parte de seu corpo e de como vai resolvendo a própria horizontalidade (e de um certo modo, a sensualidade de um corpo deitado no chão de uma mulher) e a sua transição para a verticalidade.
Enquanto está investigando essa horizontalidade e transição para o eixo vertical, os sons ainda são mais "guturais", abstratos e expirados, enquanto a sua estabilização na verticalidade vai dando espaço para uma voz articulada com as palavras, o que pode nos remeter à própria racionalidade construída pelo desenvolvimento do ser humano que acaba por encontrar sua expressão mais "comum" na palavra, quando ele já consegue ficar de pé.
A relação trazida pelas palavras de Mosé, ao proclamar que "a dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo", nos coloca em contato também com a quantidade de "doenças" que vamos gerando ao engolir tantas palavras que não deveriam ter endurecido em nossos corpos: "palavra boa é palavra líquida escorrendo em estado de lágrima".
Com Silvinha a própria palavra já vem escrita no corpo, e dessa metáfora de seu corpo já inscrito nas memórias e desejos, é que ela vai permitindo que passemos nosso olhar das palavras, para a sua pele, para seus olhos e, enfim, a sua individualidade. E é aí onde podemos perceber toda a força de sua performance, ao conseguirmos entrar em sua proposta, participando com a nossa individualidade no diálogo entre corpos e seres que somos pra poder compartilhar algo tão íntimo.
Silvinha passa e nos deixa a força do presente com o aroma do passado e do futuro, pra nos dizer o quanto o presente nada mais é do que o único momento em que estamos realmente vivos, e isso está inscrito em todo o nosso corpo.




















































