quinta-feira, 17 de novembro de 2011

LEITURA CRÍTICA: BRINCADEIRAS DE RODA E ESTÓRIAS E CANÇÕES DE NINAR

Uma das grandes contribuições para dança em Pernambuco, com certeza é o Balé Popular do Recife. Com 34 anos na estrada, o Balé fez as danças tradicionais e os folguedos saírem de uma certa clandestinidade quando se referia à sua encenação nos palcos da cidade e no cotidiano de muitas pessoas da área urbana.

Dentro dessas contribuições está a sua entrada na formação de bailarinos que até a década de 70 acontecia (em termos profissionais) exclusivamente com danças clássicas, modernas e jazz. Com essa nova geração de bailarinos formados pelo Balé Popular, fazer dança deixou de ser sinônimo de fazer dança clássica.

Em "Brincadeiras de Roda e Estórias e Canções de Ninar" (1987 - mesmo ano em que criaram Nordeste: A Dança do Brasil), do grupo infantil do Balé Popular do Recife, a construção de uma ópera se dá com todos os elementos tão presentes nas tradições populares, com o ator/dançarino/cantor transitando nessas linguagens sem precisar enunciar que "mudou de função". 

A grande quantidade de crianças no elenco dá uma alegria de saber que várias delas, mesmo que não venham a entrar na dança profissionalmente, estão tendo uma formação artística, não apenas como bailarinos, mas também como apreciadores, ao desenvolver sua sensibilidade para as manifestações inspiradas na cultura tradicional.

O trabalho de voz e corpo faz do espetáculo uma ótima oportunidade  de explorar muitas potencialidades dessas crianças, mas, às vezes, a gravação da voz (que é utilizada em playback) diminui a força que poderia acontecer com a voz utilizada ao vivo (mesmo com o uso de microfones). Apesar de saber que aumentaria imensamente o custo de um espetáculo como este, considero esse recurso como ponto que fragiliza o espetáculo.

Com a maestria do Balé Popular e de seu diretor André Madureira, o espetáculo cumpre uma função muito importante na formação de novos bailarinos.

Com a indicação de ser um espetáculo infantil, percebo que talvez a duração do espetáculo e a dinâmica nas transições de cena podem ter perdido um pouco de sua força, talvez pela distância temporal entre a época de sua estreia (1987) e o tempo presente.

Um espetáculo que nos traz um olhar de que fazer dança, ainda criança, pode enriquecer mais o nosso universo imaginário e nossas potências corporais. Parabéns ao Balé por manter esse espaço para a formação em dança de crianças e adolescentes.

LEITURA CRÍTICA: AS ANDANÇAS DO DIVINO

Por Marcelo Sena

Se a praça pública é pra ser aberta a todos e ser um espaço para o encontro, o Balé Popular do Recife aproveitou a grande oportunidade de usar esse espaço para narrar a história de "As Andanças do Divino", com suas muitas histórias entrelaçadas.

Feito para comemorar os 30 anos do Balé, o espetáculo traz sua escrita "brasílica" da dança para levar diversas história a partir da trajetória do mestre mamulengueiro Simão Madureira que sai do sertão rumo ao litoral, encenando a Paixão de Cristo com seus bonecos. Em sua estreia, o espetáculo tinha a duração de 2 horas, mas a versão apresentada na II Mostra de Artes Cênicas de Triunfo foi de 1 hora. Se o tempo pode favorecer uma apreciação mais imediata, já que não temos o hábito muito comum de assistirmos espetáculos maiores que 1 hora, ele também pode tornar a história um pouco confusa, e é o que acaba acontecendo nessa nova versão de "As Andanças do Divino". Como cada cena conta uma parte da história e isso vai tecendo o caminho de cada personagem, o corte de algumas cenas deixa um pouco difuso esse tecer, desfocando a narrativa.

Se em sua estreia poderíamos, mesmo que ainda um pouco confuso, perceber as narrativas sendo cruzadas e desenvolvidas, agora esse fator fragiliza um pouco o espetáculo, já que acabamos por perceber diversas cenas dançadas, mas algumas vezes, sem a referência de sua inspiração, aproximando um pouco de um de seus espetáculos de grande visibilidade que é o "Nordeste - A Dança do Brasil" (1987), onde eles apresentam, de uma forma quase didática, diversas danças populares a partir da dança brasílica (um novo método e estilo de dança construídos pelo Balé Popular do Recife), mas em "Nordeste" o que rege a apresentação é exclusivamente a apresentação dessas danças.

Levar arte aonde o povo está, é uma das grandes paixões do fundador e diretor do Balé Popular do Recife, André Madureira, e, ao ser apresentado em praça pública, isso fortaleceu imensamente o espetáculo. Bailarinos e técnicos super afiados para fazer de uma apresentação pública um grande momento de celebração.

sábado, 12 de novembro de 2011

LEITURA CRÍTICA - EU VIM DA ILHA

por Marcelo Sena

O papel de grande importância exercido pela Cia. de Dança do SESC Petrolina faz de sua trajetória de 16 anos um caminho firme pra todos aqueles que já passaram pela companhia.

"Eu Vim da Ilha" celebra da melhor forma esse caminho e lança os corpos na água do São Francisco , atravessando até chegar lá do outro lado, na Ilha do Massangano, pra poder olhar de longe esse percurso. E lá na ilha, esses corpos encontram e reencontram um pulsar de vida que brota do chão e contamina todo o corpo, dos pés, ao rosto, aos cabelos, até a sua extensão maior: a voz, que consegue ir aonde a pele já não consegue alcançar.

A força e verdade trazida pelos bailarinos e pelas bailarinas desse espetáculo já dizem muito de onde vêm e pra onde vão, ao colocar tanta firmeza na movimentação e no "sequestro" da atenção do público. Um tipo de presença corporal que emana um tônus muscular com muita propriedade de onde partiu a inspiração para a criação: o Samba de Véi, da Ilha do Massangano.

Importante saber que na pesquisa para o espetáculo, todos da equipe de criação estiveram presentes na ilha, nas festas, sambando, observando, vivendo e sentindo pulsar no corpo o que é essa ilha. Se muitas vezes percebemos alguns espetáculos de dança tendo inspiração em tradições, mas esbarrando nas caricaturas, "Eu Vim da Ilha" esquece a "forma" dessa tradição e passa a vivê-la, pra daí sentir os impulsos corporais pra darem partida ao processo de criação de movimento e de composição das cenas. E isso está presente em todas as linguagens envolvidas, com grande coerência.

A textura do chão, a construção de uma luz que toma sua própria materialidade como cenário, os figurinos e a música envolvem a criação de um jeito a nos fazer atravessar o rio e entrar na ilha junto com eles, e entrar de cabeça erguida e seguro de saber que a terra é firme.

"Eu Vim da Ilha" diz muito mais do que partida e chegada; fala dos nossos corpos-ilhas pulsantes e vivos que buscam a comunhão com outros corpos-ilhas, fazendo da água não mais o que nos distancia, mas o que nos aproxima.

DIA 11/11/2011 - FOTOS

OSSEVAO
(Coletivo Lugar Comum)