Jorge Andrade - Drama e realidade
Por Wellington Júnior
Assistindo a leitura dramática do texto A moratória apresentada na II Mostra de Artes Cênicas do Sesc Triunfo, pude relembrar a primeira vez que li uma peça de Jorge Andrade – foi Pedreira das almas, e quando terminei de ler estava fascinado pelo poder como esse autor conseguia construir personagens tão fortes e motivadores de ação para o trabalho de atores.
Jorge Andrade é um dramaturgo que repassa a história do Brasil através dos conflitos subjetivos de suas personagens. Sua obra vai se transformando com o tempo (elemento tão importante em seu projeto dramatúrgico). Jorge é um dramaturgo-pesquisador por ter um projeto estético que foi se definindo no decorrer de sua trajetória criativa.
Esse projeto tinha conteúdos claros – as memórias do Brasil e suas conexões com a realidade – e tinha uma forma – as tensões entre drama e epicidade. A dramaturgia de Jorge Andrade se configura a partir desses eixos e vai percorrendo essas múltiplas possibilidades estéticas.
A moratória é um texto que enfoca a crise na produção cafeeira nacional, gerada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, e acompanha a destruição de uma família aristocrática. Ambientada em dois momentos – os anos de 1929 e de 1932 – a estrutura dramatúrgica intercala cenas na casa da fazenda e cenas na pequena casa da cidade.
Mas o grande recurso dramatúrgico de Jorge Andrade é mesmo a construção das personagens – conseguimos perceber o quanto ele consegue mostrar através das ações e do diálogo a elaboração dos pensamentos dessas personas. Por isso ele é um excelente dramaturgo para atores.
E qual seria a importância de reler um Jorge Andrade nos dias de hoje?Reflito sempre sobre isso – pois devemos lembrar que seus textos estão alicerçados numa forma de drama moderno e de conflitos intersubjetivos. Acredito que não existe forma velha para conteúdos ainda necessários de serem discutidos como obra de arte. Exemplos claros disso são as dramaturgias de David Mamet, Sam Sheppard e Edward Albee.
A leitura dramática de A moratória dirigida por Claudio Araújo coloca como elemento central o caráter social do texto de Jorge Andrade. Dessa forma, o caráter épico se apresenta tão fortemente na estruturação da leitura.
O elenco formado por Teco de Agamenon, Thays Fernanda, Fernanda Araújo, Carlos Samuel, Bruna Florie e Claudio Araújo nos mostra que conhece muito bem o universo do autor e o contexto social dessas personagens. Mas acredito que esse conhecimento pode ser mais aprofundado humanizando as relações desses seres ficcionais. Essa humanização está bem presente nas interpretações dos momentos em que o conflito se torna mais intenso. Pois nessas cenas percebo que os atores estão completamente envolvidos pela ação de suas personagens.
Mesmo assim a leitura tem uma grande importância para a cidade de Triunfo, por que consegue unir gerações diferentes de atores e fazer com que eles possam trocar experiências e dar força para que o teatro de Triunfo possa se tornar uma realidade mais urgente.
Finalizo destacando o trabalho dos atores Teco de Agamenon e Thays Fernanda que conseguem nesse encontro de gerações instantes poéticos de extrema delicadeza interpretativa, pois exploram com grande presença o jogo interpretativo entre suas personagens.

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