segunda-feira, 7 de novembro de 2011

LEITURA CRÍTICA - O AMOR DE CLOTILDE POR UM CERTO LEANDRO DANTAS


O ator entre lágrimas e risos
Por Wellington Junior
A montagem O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas da Trupe Ensaia Aqui Ensaia Acolá se apresentou na II Mostra Artes Cênicas do Sesc Triunfo no Theatro Cinema Guarany. O espetáculo foi considerado um dos melhores trabalhos do ano passado, e em 2011 circulou por diversas cidades brasileiras, conseguindo uma excelente recepção de público e crítica.
Essa é a segunda vez que escrevo sobre O amor de Clotilde – o que é um privilégio para um crítico conseguir desenvolver seu pensamento estético sobre uma mesma obra de arte diversas vezes. Assim pretendo ampliar meu diálogo estético agora a partir da construção atorial proposta pela encenação e as tensões presentes nessa escrita cênica.
Começo refletindo sobre os conceitos predominantes na formação de atores no mundo inteiro – a idéia e a ação de um ator realista. E isso significa um intérprete servidor do texto e  que consegue vestir uma personagem individualizada e única. Não condeno essa forma de constituição estética. Acredito que ela é uma opção dentre muitas importantes para o teatro.
Mas há uma grande incidência dessa forma de interpretação, o que acabou no caso do Brasil ocultando a forma popular – ou melhor,  estética periférica de atuação.  Para alguns pesquisadores essa interpretação popular seria inclusive a idéia de um ator brasileiro. A pesquisa do professor Marco Camarotti sobre esse teatro marginal (conceito hoje ampliado pelo pesquisador Marcondes Lima) busca dar um novo lugar para esse sistema popular de atuação.
Os atores que faziam os melodramas e farsas nos circos constituíram um sistema potente e inovador de interpretação. Nesse sistema a comunicação com os espectadores e com o ponto (pessoa que dizia o texto quando um dos atores esquecia) é um grande diferencial – pois cria uma idéia triangular de atuação, multiplicando os estímulos-ações dos atores.
No caso do espetáculo O amor de Clotilde, a linguagem proposta pela encenação coloca os atores dentro desse sistema interpretativo. Percebo que cada vez mais os atores conseguem potencializar esse sistema em seus trabalhos em cena.
Divido aqui minha análise em três pontos (corporalidade, vocalidade e jogo interpretativo) para melhor compreendermos como se constitui esse sistema nesse espetáculo.
A dramaturgia corporal elaborada pelos atores centra-se numa partitura clara de ações que buscam essencializar os personagens-tipos em gestos característicos – clicherizados. Essa é uma marca estética forte na construção atorial. Arrisco dizer que seja o elemento de trabalho de ator mais potencializado pelo elenco.
A vocalidade na estrutura popular proposta pela encenação deseja criar golpes vocais – efeitos como os elaborados pelos atores românticos que alternavam agudos e graves e criavam momentos fortes de vocalidade. O elenco satiriza esses recursos atoriais.
E o jogo interpretativo – onde os atores através de gags cênicas mostram seus personagens-tipos. Isso fica muito claro nas dublagens onde o potencial de criação de golpes cênicos e jogos estão em sua força máxima, pois conseguem sempre surpreender os espectadores através de hilariantes ações cômicas.
Claro que há tensões presentes nessa estruturação: destaco uma delas – a perfeição formal do jogo corporal como possível prisão na constituição improvisacional tão presente nas formas populares. Essa formalização às vezes excessiva da cena pode sufocar o potencial criador de diálogo com os espectadores. E percebo que quando o espetáculo se apresenta em palcos à italiana esse fenômeno se exacerba em alguns momentos.
Mas como no elenco de O amor de Clotilde temos atores que cada vez mais conseguem ter uma inteligência cênica – sabem dominar o jogo e sempre conseguem deixar ele vivo – esse risco de ‘estetização’ interpretativa diminui bastante.
Quero aqui destacar o crescimento do trabalho de dois atores: Tatto Medinni e Andréa Rosa. Vejo o quanto eles estão se apropriando mais do sistema arquitetado pelo espetáculo. Os dois estão sabendo ampliar a força do jogo interpretativo, pois estão mais autorais na cena – presentes cenicamente. O restante do elenco está também ampliando seus recursos e se apropriando muito bem desse sistema interpretativo criando uma autonomia atorial.
Gostaria de finalizar destacando o trabalho de uma atriz que está nesse espetáculo em outra função – no caso na produção. Karla Martins hoje é uma das melhores produtoras de teatro em Pernambuco. Ela vem conseguindo criar uma logística de gestão que organiza e potencializa o produto artístico. E ela traduz muito bem o trabalho da Trupe Ensaia Aqui e Acolá, sabendo unir criação e comunicação com os espectadores. É por isso que O amor de Clotilde é um dos melhores espetáculos pernambucanos desses últimos anos.

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