Por Marcelo Sena
Como fazer de seu próprio corpo, um lugar de lazer, lúdico e desafiador? "Quando eu era", espetáculo da Trupp Cia. de Dança (Recife/PE) que se apresentou no Teatro Guarany, trouxe essas questões dialogando diretamente com aqueles que, em sua maioria, ainda têm muito dessa espécie de contato com o próprio corpo: as crianças.
Com direção de Isabel Ferreira, o espetáculo foi criado há 3 anos, e não tinha como "público-alvo" crianças e adolescentes. "Criamos o espetáculo pensando numa platéia de adultos, só depois surgiu o convite para apresentar para crianças". E parece ter sido um bom desdobramento, já que elas abordam essas questões de uma forma leve e despretenciosa para jogar com os primeiros conflitos que surgem dessas brincadeiras e também da relação social que começa a ser esboçada no compartilhamento de suas regras, numa metáfora dos direitos, deveres e da moral em nossa sociedade.
Presenciei o primeiro experimento feito desse espetáculo, ainda no formato de solo, com Isabel Ferreira, e percebo que muitas cenas foram potencializadas, principalmente naquelas em que o jogo coletivo se torna possível e nas surpresas que passam a ser mais instigantes, com as transições de cenas mais dinâmicas.
Pensar dança contemporânea com temática infantil não é tarefa fácil, principalmente quando se quer trazer o universo lúdico, por tocar em tantos clichês já explorados e muitas vezes mal sucedidos. Mas a Trupp consegue trazer as brincadeiras interferindo nas próprias "regras" de construção da coreografia, trazendo procedimentos contemporâneos de criação como estabelecer relação entre partes do corpo e o todo, utilizar jogos de imitação, para encontrar movimentos repetitivos e cíclicos tão comuns a diversas danças contemporâneas, e do uso do limite como possibilidade de criação, como na cena em que a mesma coregrafia vai sendo repetida, a cada vez, com uma parte do corpo imobilizada. Processos criativos que se tornam encenados e divertidos pra quem vê e participa.
A presença da fala parece um pouco frágil em relação à fisicalidade que é explorada no espetáculo, deixando muitas vezes o tom da fala meio incerto, em relação à intenção de alguns textos. Talvez um pouco mais de calma e respiração, o que poderia também contribuir ainda mais com a execução dos movimentos das bailarinas.
Muito bom ver a precisão do movimento quando necessário e também seu "esboço" quando proposto em cena. E isso fica visível. Entrar ainda mais nas regras do jogo pode ser um bom aprofundamento para o espetáculo, que, em alguns poucos momentos, parece abandonar as regras e soar um pouco "de mentirinha". A cabra-cega e o duelo dançado na cena dos pintinhos podem ser ainda mais ousadas.
A brincadeira como grande caminho de conhecimento do próprio corpo e, consequentemente, de si próprio, é o grande potencial desse espetáculo. Se a dança faz do corpo uma grande área de conhecimento, a brincadeira faz desse conhecimento uma grande diversão, e essa é a grande contribuição que a Trupp traz.
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