segunda-feira, 7 de novembro de 2011

LEITURA CRÍTICA - VORAGEM


O homem é um animal voraz; o teatro é uma arma sagaz
Por Wellington Júnior
É terrível matar.
Mas não matamos só aos outros, matamos a nós mesmos quando necessário.
Pois só pela força
O mundo mortífero pode ser mudado,
Conforme é do conhecimento de qualquer um.
Bertolt Brecht
Quando estamos em tempos de guerra, o homem pode matar até sua imagem no espelho para que a revolução e o poder aconteçam. Essa necessidade de destruição do humano está bem retratada na história bíblica de Urias, Betsabá e o rei Davi.
O  Rei Davi se apaixonou fortemente por Betsabá ao vê-la banhar-se do alto do terraço de seu palácio – a beleza dela e sua inteligência eram algo encantador. Ele a chamou a seus aposentos e fez sexo com ela, resultando na gravidez. Ao saber que Betsabá era esposa de Urias e que este estava há muito tempo em campanha militar, Davi chamou-o, sugerindo que fosse passar uma noite com a esposa.

Urias recusou, alegando um código de honra dos soldados antes da batalha. Por este código, os soldados às vésperas de guerrearem, deveriam se abster de sexo como forma de manterem a disciplina. Após repetidamente recusar ir até Betsabá, Davi enviou-o a seu oficial comandante Joabe com uma carta que ordenava colocar Urias na frente da batalha e deixá-lo sem proteção de modo a que ele fosse morto pelos inimigos.

Essa narrativa inspirou o Grupo de Teatro Magrygory do Sesc Santa Rita em seu novo espetáculo Voragem que tem dramaturgia de Ana Paula de Sá e Quiercles Santana. Na versão elaborada pelo grupo, acompanhamos a trajetória de Samuel e Judith através de seus amores e perdas numa situação de guerra civil.

A estrutura dramatúrgica arquitetada pela dupla de autores explora ao máximo o potencial épico dessa história. Assim através de reflexões e monólogos narrativos vamos conhecendo e percebendo a dialética vivida pelo casal de protagonistas.

Ana Paula e Quiercles conseguem com  excelência criar uma multiplicidade de olhares sobre as perdas e desejos desses personagens, possibilitando ao espectador acompanhar, escolher e tensionar as diversas opiniões.

O texto de Voragem dialoga com dramaturgias narrativas que querem a partir do olhar das histórias bíblicas redimensionar essas mitologias com o mundo contemporâneo. Percebemos esses recursos temáticos na trilogia bíblica do Teatro da Vertigem e também no trabalho da Societa Raffaelo Sanzio.

Mas para mim a dramaturgia do Grupo Magrygory está mais direcionada pelo olhar de um Hermilo Borba Filho e de um Paul Claudel. O texto do espetáculo constroe esse épico através de uma opção poética da cena – na composição de ações  que causem um estranhamento pelo seu caráter teatral e simbólico. Diferente dos grupos citados no parágrafo anterior que elaboram suas cenas a partir de um ato performativo que se aproxima mais de uma realidade contemporânea cortante.

Essa opção poética - que traz para o palco imagens de forte intesidade teatral e que se relacionam amplamente com a estrutura sonora que surge dos diálogos – é seu mais forte recurso estilístico na composição textual, pois é uma dramaturgia pensada com o olho da cena.

O trabalho dos atores compreende bem esse sistema dramatúrgico e o elenco sabe jogar muito com ele. Claro que Rita Marize Farias e Célia Cardoso dominam bem mais  essa estrutura - nelas percebemos como tiram proveito da partitura imagética e sonora do texto. A contenção corporal foi um elemento fundamental para que as intenções textuais pudessem ser melhor compreendidas pelos espectadores.

Yuri Andrade, Marinho Monteiro, Kamila Souza, Gustavo Soares e Luiz Gustavo são atores que conseguem traduzir muito bem a proposta textual através da poética da ação vocal, colocando uma linha imagética na estruturação sonora de suas interpretações. São jovens atores que possuem um grande potencial e que já são uma importante aquisição para o teatro pernambucano.

Os atores José Borba, Amanda Dias, Danielle Teixeira, Hiranny Teixeira, Andreza Karine estão bem envolvidos pela ação épica, conseguindo produzir imagens cênicas de grande beleza, mas percebo que a vocalidade do texto nesses atores ainda está em processo de experimentação. Mas a entrega deles ao espetáculo é total e isso já é muito emocionante.

A escritura cênica de Voragem possui também contradições como todo trabalho dialético. A voracidade do texto com suas múltiplas narrativas pode turvar a recepção do espectador em certas cenas, impendindo que ele possa acessar as discussões políticas propostas pelo grupo.

Outra contradição reside numa distância histórica que o texto impõe a cena, podendo resultar em um possível efeito de alienação do mundo contemporâneo e em uma formalização excessiva do recurso épico. Quero dizer que a voracidade do texto pode às vezes impedir a sagacidade da teatralidade narrativa.

Mas essas tensões estéticas não maculam a beleza poética do espetáculo. Pois esse trabalho já é muito importante para cena teatral pernambucana no ano de 2011 por revelar dois excelentes autores – Ana Paula de Sá e Quiercles Santana ; por possibilitar o público de ver as belas atuações de Rita Marize Farias e Célia Cardoso; e também por conhecermos o instigante trabalho de uma talentosa turma de jovens atores.

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